A evolução da Arquitetura de Interiores
Por Arq. Ignez FerrazA área social
No início do século XX, à medida que se estreitam os laços com a Europa civilizada aumentam os aposentos da área social, requintando-se a decoração. Temos diversas SALAS com destinos variados como salas de espera, de música, biblioteca. Mais tarde, mesmo nos primeiros edifícios de apartamentos, esta prática de utilização de vários aposentos para o setor social mantém-se quase inalterada – principalmente em relação às salas de estar e jantar. No presente, o HOME-THEATER seria o cômodo que melhor representaria nossa evolução tecnológica da Sala de Música Art-Nouveau, integrando som e imagem através de vídeo-lasers e DVDs.
| Estante para som e TV, além de livros e mesa de trabalho |
Na década de 30 a família de classe média, apreensiva com o radicalismo "moderno", opta pelo Neocolonial, movimento luso brasileiro surgido em meio a ardorosas declarações de nacionalismo. E nessas soluções formais o alpendre adapta-se perfeitamente à disposição geral da residência, refletindo o uso intenso que todos fazem deste espaço, redescobrindo modelos do século XVIII com seus terraços em arco, pérgulas e pátios internos. Hoje as VARANDAS são indispensáveis tanto nas casas quanto nos apartamentos conferindo-nos o verde necessário nas áreas íntima e social.
| Poucos sabem fazer uso do nosso clima e sentir o prazer de uma refeição na varanda do seu apartamento. |
A área de serviço
Talvez seja este o mais importante setor da casa brasileira, principalmente para a classe média, pois numa análise detalhada é possível entender muito da intimidade da família. São aqui que os hábitos se revelam com mais clareza, sem as "máscaras" usadas no setor social. A COPA -- ou “sala de almoço” -- apareceu na virada do século quando é abolida a “sala de viver”, que era um espaço agregado à cozinha, às vezes alpendrado. Com a popularização do rádio, é neste cômodo que a família se reúne para ouvir as novidades. Nela eram utilizadas paredes revestidas de azulejos até a metade (arrematadas por motivos gregos) e pisos em cerâmicas hexagonais. É a partir da década de 40 que os pisos decorados em ladrilho hidráulicos usados desde o início do século cedem lugar às pastilhas, ambos tão em voga novamente.
A partir da década de 60, a COPA e a COZINHA são integradas em uma única COPA-COZINHA, muito distantes daquele tradicional espaço onde eram resolvidos os problemas do cotidiano. Em compensação, a culinária popularizou-se. Homens ocupam orgulhosamente espaços antes destinados às donas de casas utilizando eletrodomésticos com design sofisticado. Adegas climatizadas já fazem parte do cotidiano e cozinhas mais espaçosas são acrescidas de "gourmeterias".
| Copa e cozinha integradas através da bancada comum, facilitando a refeição preparada pelo próprio dono da casa. |
A área íntima
Ao entrarmos no setor íntimo estamos um universo que pode ser desconhecido, repleto de tabus raramente revelados ao visitante. Os QUARTOS e BANHEIROS evoluíram da sombria alcova colonial com espaços destinados à higiene quase inexistentes aos requintados cenários de culto ao corpo do final do século XX. O princípio do século passado -- com seus hábitos franceses -- introduziu a sofisticação nos BANHEIROS: ferragens rebuscadas, louças finas, espelho de cristal importado e bancadas em pedras nobres.
Já na década de 60, além da possibilidade de se utilizar mais de um BANHEIRO, os materiais melhoram na qualidade e já apresentam diversidade de padrões: louças coloridas, azulejos decorados ou em cores lisas, peças de acabamento para a pia, pisos vitrificados. O requinte do início do séc. XX ressurgiu nos anos 70, com a febre das suítes. Há uma verdadeira mitificação do espaço para a higiene. Encontramos jardins internos, iluminação zenital, banheiras de massagem, saunas, duchas e grandes espelhos.
Como ficam os BANHEIROS hoje?
Ainda requintados e cada vez mais inovadores, com designers do porte de Philippe Stark criando duchas, metais monocomandos e inúmeros acessórios, com todas as possibilidades tecnológicas disponíveis nas grandes indústrias. Vivemos, porém, uma outra realidade espacial: áreas reduzidas, muitas vezes em apartamentos alugados ou apart-hotéis, onde módulos “nômades” passam a ser a solução.
| Módulos componíveis com frente de resina e interior metálico são adaptáveis em qualquer dimensão do ambiente, sem a necessidade de obras. Práticos e híbridos. |
A partir da década de 70, com a especulação imobiliária e a necessidade de construir mais e não melhor, reduzem-se cada vez mais as áreas dos compartimentos, inversamente proporcionais ao aumento de suas funções. Os mesmos QUARTOS servirão como sala de TV, escritório ou espaço para hóspedes, amenizados por banheiros privativos ou, às vezes, pequenas varandas individuais, que passam a ser símbolo de bem-morar.
| A estante-armário em frente ao closet abriga os livros do pó, mas com fácil acesso. Já a mesa em primeiro plano possui rodízios, podendo ser utilizada para a TV ou computador, além de penteadeira, com espelho inteiro deslizante por trás. |

